O que é azia?
Azia, termo latino, ou pirose, de origem grega, são sinônimos e equivalem à dor em queimação. Constitui queixa extremamente comum, apresentada por pacientes de qualquer idade, gênero ou etnia, cuja abordagem inicial deve ser feita por médico, independentemente da especialidade.
Pode se localizar no epigástrio (boca do estômago ou centro do andar superior do abdome) e/ou na região
retroesternal (atrás do osso esterno, disposto longitudinalmente no meio da face anterior do tórax). Alguns reservam azia para desconforto no epigástrio e pirose, na região retroesternal; todavia, qualquer que seja o termo empregado, não está implícita a localização da dor. É absolutamente necessário averiguar qual o significado para o paciente, que pode estar empregando “azia” para descrever outras condições.
Azia, ou qualquer queixa digestiva, pode decorrer de afecção em outros sistemas. Por exemplo, azia pode ser manifestação de infarto do miocárdio, sendo fundamental que seja feito o diferencial, especialmente para pacientes com quadro agudo ou que procuram pronto-atendimento.
Geralmente, manifestação isolada não possibilita o diagnóstico; o conjunto de sintomas e sinais detectados à avaliação clínica (anamnese ou histórico e exame físico) é que a ele remete.
Quais as causas?
Várias são as condições em que ocorre azia.
A azia ocorre na doença do refluxo gastroesofágico, mais conhecida quando há “hérnia de hiato esofágico” ou “esofagite de refluxo”, alterações menos presentes naquela condição. Também ocorre no portador de úlcera péptica (no estômago e/ou no duodeno, primeira porção do intestino). Azia pode ser manifestação inicial de câncer de estômago (com a progressão da doença, outras manifestações ocorrem).
Irritação da mucosa (camada que reveste internamente o tubo digestivo) pode explicar a azia. Mais freqüentemente decorre da ingestão de álcool ou do uso de antiinflamatório (como o ácido acetilsalicílico, também conhecido por AAS).
Uma das mais freqüentes causas de azia é o erro alimentar. Os hábitos do estereotipado homem de negócios é o melhor exemplo. Come rápido e em excesso; abusa de gorduras, cafezinhos, bebidas alcoólicas e doces; consome poucas verduras, legumes ou frutas; fuma; tem peso corporal acima do recomendado; é sedentário e estressado. Não raro, ingere o que já sabe que faz mal, discute, toma decisões e/ou assiste televisão durante as refeições. Deita-se imediatamente após a refeição para ler, relaxar ou dormir. Não entende o porquê de queixas como “acordo com o estômago cheio e com gosto de cabo de guarda chuva”. Não aprecia, não respeita, não tem prazer à refeição.
Parasitas intestinais, vermes e/ou protozoários podem desencadear azia.
Azia pode ocorrer em indivíduo sem qualquer das alterações acima comentadas, sem qualquer alteração nos exames clínico e subsidiários usualmente requisitados (exames bioquímicos, endoscópicos e de imagem). Nesta condição de normalidade à investigação, configura-se quadro funcional (ou não-orgânico).
Quais os sintomas?
Na doença do refluxo gastroesofágico, azia costuma incomodar após as refeições, principalmente quando o indivíduo se deita. Ocorre especialmente após a ingestão de alimentos gordurosos, condimentados ou doces. Fumo, café, chocolate, álcool, antiinflamatório e estresse são importantes desencadeantes. Certos hábitos e condições também aumentam a ocorrência de refluxo, como obesidade, gravidez, hipotiroidismo, constipação, comer rápido e em demasia, beber em excesso, usar roupa apertada. A azia pode ser acompanhada de arrotos, regurgitação e/ou empachamento pós prandial. Também se associa à dor torácica, semelhante à da angina ou do infarto do miocárdio, bem como com asma (broncoespasmo), dor de garganta, rouquidão, pigarro e até aftas e cáries.
Portador de úlcera duodenal tem azia quando se estende o período de jejum, especialmente durante a noite, em que o desconforto pode despertá-lo. Quando da úlcera ou câncer no estômago, o paciente apresenta dor ao se alimentar, emagrecendo por evitar ingestão, além de ser acometido por náuseas e vômitos. No paciente que se excedeu na ingestão alcoólica ou fez uso de antiinflamatório, a azia pode ser persistente e piorar com a alimentação, ou até mesmo com a ingestão de líquidos, também podendo ser acompanhada de náuseas e vômitos.
Como é feito o diagnóstico?
Fica evidente que azia é queixa comum a várias condições mórbidas. Cuidadosa avaliação clínica (história ou anamnese e exame físico) possibilita o diagnóstico, do qual depende o tratamento. Não raro, é necessária a realização de exames subsidiários. Esses exames são obrigatórios quando há: possibilidade de câncer, sangramento ou alteração nutricional. Indivíduos com mais de 50 anos, com antecedentes pessoais ou familiares de câncer gástrico, doenças de risco de morte ou de graves conseqüências, que apresentem anemia, emagrecimento, icterícia, dificuldade para deglutir ou sono prejudicado pela azia devem ser investigados, submetidos a exames subsidiários.
Paciente que não se encaixa nessas condições pode relatar o que teria provocado a azia e, a princípio, não requerer investigação. Parasitose intestinal pode ser evidenciada pela eliminação espontânea ou com as fezes de verme. Azia pode ter se apresentado após o uso de determinado antiinflamatório ou após ingestão exagerada de álcool ou certo alimento. Para portador de doença do refluxo gastroesofágico, pode ocorrer com transgressão alimentar (aumento na ingestão de gordura, por exemplo) ou ao se deitar após uma refeição. Indivíduo que com antiinflamatório apresenta azia provavelmente repetirá o quadro ao voltar a fazer uso da medicação, qualquer que seja a via de administração (oral, dérmica, retal, intramuscular ou intravenosa) e independentemente de ser após alimentação ou com leite (“com o estômago forrado”).
Os exames subsidiários, necessários à investigação, baseiam-se na avaliação clínica, portanto na hipótese diagnóstica elaborada. Endoscopia digestiva alta é o exame mais pedido. Simples exame de fezes pode ser o suficiente. Exames de imagem (como ultra sonografia ou tomografia) ou mesmo pHmetria e manometria podem ser necessários, assim como a impedanciometria.
Que alimentos podem causar azia? Misturar determinados alimentos numa mesma refeição pode causar azia?
O homem sempre criou teorias para explicar fenômenos naturais e doenças que o afligem. Muitas dessas teorias, apesar de superadas pelo progresso dos conhecimentos, permanecem arraigadas, fazendo parte da cultura popular, constituindo crendices ou superstições. Não são poucas as proibições, interdições ou tabus voltados para a prevenção ou resolução de eventos ameaçadores.
A relação do sistema digestório com as emoções é sobejamente conhecida, especialmente a partir de Pavlov e Freud. Períodos de tensão, decorrentes de ganhos ou perdas, não raro, provocam desconforto digestivo per si. Assim como podem desencadear mudanças de hábitos, que proporcionariam o desconforto.
Pelos próprios pacientes, alimentos e suas combinações são colocados como vilões e geram interdições alimentares. A ingestão de alimentos ricos em gordura, como chocolate, maionese, frituras (especialmente ovo, bife à milanesa, batata frita, bacon), não raro provoca azia ou evoca afirmações como “sofro do fígado”, “minha vesícula é preguiçosa”, “tenho gastrite”, “fico com a boca amarga”.
Excesso de ingestão de líquido ou de alimentos durante a alimentação (“comer até a tampa”) provoca desconforto. Na maioria das vezes, os queixosos não reconhecem o desencadeamento do quadro pelo excesso cometido ou pela inapropriada forma de alimentação (rápida, sem mastigar, em ambiente e atmosfera inapropriados) - ver erro alimentar, acima discutido.
A interdição para associar manga com leite originou-se na época da escravatura, baseada em interesse econômico e sem inconveniência médica. Quanto à restrição de consumo de bolo quente, provavelmente foi uma vovó que criou a história, para evitar que o bolo por ela feito fosse cortado antes de ir à mesa. Já foi hábito ingerir cerveja preta com ovo, inclusive com a casca, com o objetivo de fortificar. Evidente que há valor calórico, mas de forma alguma a casca do ovo constitui fonte aproveitável de cálcio.
Até a indústria cria mitos para estimular a venda, pouco contribuindo para a promoção de saúde. Gemada com vinho do Porto ou o antigo “Biotônico Fontoura” (que continha álcool) foram muito propalados. Talvez o mito de maior impacto seja do personagem infantil Popeye, criado frente à necessidade de escoar supersafra norte americana de espinafre. Maior ingestão de espinafre proporcionaria descomunal força física e desenvolvimento, dado o alegado, mas irreal, teor elevado de ferro. Outro exemplo é o das dietas e produtos (milagrosamente) emagrecedores.
Por que a mulher grávida sente azia?
A gravidez envolve mudanças hormonais. Hormônios sexuais, de forma geral, levam ao relaxamento da musculatura.
Toda a musculatura do trato digestivo sofre relaxamento, na gravidez, assim como nas usuárias de anticoncepcional. Com a diminuição do tônus do esfíncter esofágico inferior, principal componente da barreira gastroesofágica, mais episódios de refluxo ocorrem, podendo ocasionar sintomas e/ou provocar o surgimento de lesões no esôfago. Dessa forma, a gravidez ou o uso de anticoncepcional podem desencadear ou agravar doença do refluxo. Diz se: não há gravidez sem azia ou “queimação na boca do estômago” (além de outras queixas como regurgitação e empachamento pós-prandial).
Afora a alteração hormonal, também ocorre aumento da pressão abdominal em decorrência do crescente aumento de volume do útero gravídico.
Qual o tratamento para a azia?
Azia é sintoma, não diagnóstico e nem necessariamente tem origem no sistema digestório. Somente com o diagnóstico feito há tratamento que não o sintomático.
O tratamento de condições decorrentes de alterações do sistema digestório é clínico, envolvendo mudança de hábitos e uso de medicamentos, endoscópico e/ou cirúrgico. Pode haver necessidade de participação de psiquiatra, psicólogo, fonoaudiólogo, de uso de radiação, entre outros. Deve-se ressaltar que, em não havendo correção de hábitos maléficos, não será medicamento que resolverá o problema. O fundamental é adotar hábitos salutares (ver próxima questão).
Frente à azia pode-se fazer uso de sintomáticos, como antiácidos (“líquido branco”, à base de hidróxido de magnésio e/ou de alumínio), e/ou de procinéticos (“que mandam o conteúdo gástrico para a frente”, à base de metoclopramida, bromoprida ou domperidona).
Há prevenção?
Ordem geral é promoção de saúde, profilaxia, prevenção, aquisição de hábitos salutares. Princípios básicos são bom senso, auto-observação, temperança, parcimônia, moderação. Várias são as orientações para promover saúde e evitar problemas. A seguir citamos algumas das mais importantes:
• Programar ao menos três refeições diárias, em ambiente calmo e com periodicidade, evitando período prolongado de jejum e conseqüente posterior exagero de ingestão;
• Escolher alimentos saudáveis e variados; “o prato deve ser colorido”, lanche (“fast- food”) substituindo refeição deveria ser excepcional, o que evitaria a repetição de “antigamente é que se comia bem”;
• Preocupar-se com a origem, transporte, preparo e manipulação dos alimentos, não só nos países como o nosso, mas também nos desenvolvidos;
• Aprender a curtir a alimentação (refeição deve ser um prazer);
• Mastigar e comer “com a cabeça” (não encher “até a tampa”, parar de comer antes de não mais caber ou ter desconforto);
• Tratar adequadamente da boca (desdentados têm problemas para se alimentar);
• Deitar-se após pelo menos uma hora de ter se alimentado, nada de lanche ou leite imediatamente antes de se deitar (deve-se evitar o assalto à geladeira ou à despensa antes de se deitar), soneca após a alimentação é na poltrona;
• Lavar as mãos antes de se alimentar e após evacuar;
• Há absoluta necessidade de controle de doenças de outros sistemas para haver normalidade digestiva (desconforto ocorre caso não haja controle de diabetes, hipotiroidismo, insuficiência cardíaca, quadros infecciosos, etc.);
• Um dos grandes vilões da especialidade é o uso de antiinflamatórios, incluindo ácido acetilsalicílico, grupo de medicamentos mais empregado em todo o mundo – caso tenha efeitos colaterais por eles desencadeados: “não chegue perto”.
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